História de amor com vampiros reinventa 'Romeu e Julieta'


Quem já leu "Lua Nova", o segundo livro da saga "Crepúsculo", sabe que nas últimas páginas do livro Edward e Bella, que formam o casal protagonista, discutem porque ela está lendo "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Bronte. O livro é um dos clássicos da literatura inglesa, mas Edward contesta que o casal de amantes, Heathcliff e Catherine, seja colocado no mesmo plano de "Romeu e Julieta" e Elizabeth e Darcy (de "Orgulho e Preconceito"), como representações do romantismo. Edward contesta Bella, dizendo que a história de "O Morro dos Ventos Uivantes" é de ódio, não é amor.


O leitor jovem pode nem prestar muita atenção no que Edward e Bella dizem, mas quem está falando ali, na naquele momento, não é só o rapaz, mas a própria escritora Stephenie Meyer. Formada em literatura inglesa, ela põe ali um toque pessoal e quem sabe uma pitada de polêmica, ou então está só querendo provar, para si mesma e para os outros, que sabe das coisas. Stephenie é hoje uma das 100 personalidades mais influentes do mundo, e isso só por causa da saga "Crepúsculo". Já virou lenda urbana a história sobre como ela teve um pesadelo, acordou, foi correndo para seu computador e começou a esboçar a história da garota de classe média que se sente atraída por seu colega, e ele é um vampiro.


Vampiros de classe média, um tanto assépticos? A verdade é que toda essa devoção do público exige investimento. O primeiro livro, e até o filme, podem ter sido espontaneamente descobertos pelo público. Agora, já tem marketing pesado em cima. Roberta Augusto, da empresa Summit, estima que "Lua Nova" poderá mais do que duplicar o público de "Crepúsculo" nos cinemas brasileiros, atingindo 7,5 milhões de espectadores.


O investimento está sendo pesado para garantir que isso ocorra e a TV tem sido aliada, não só a rede Telecine. A Globo fez um concurso, "O Desafio do Vampiro", cujo desfecho teve pico de audiência dentro do Fantástico, dia 1º. O sucesso se reflete na venda antecipada, que atingiu 95 mil ingressos na rede Cinemark, bem mais do que o fenômeno "Harry Potter". Lautner é mero coadjuvante em "Crepúsculo", amanhã (14) à noite, na TV paga. Em "Lua Nova", Pattinson é o herói que quase não se vê. Lautner - o lobisomem - cresce em cena. O próprio ator passou por uma transformação.


Ele conta que quase foi demitido da produção, mas conseguiu convencer o diretor Chris Weitz que poderia ganhar massa física, e rapidamente. Os garotos, na fase pré-lobisomens, passam pelo filme com barrigas tanquinhos e bíceps desenvolvidos, quase sempre sem camisa. Em tempos de Mix Brasil, a produção não se arrisca a desperdiçar o potencial de atração para um público, digamos, alternativo. Lautner, apesar do físico sarado, é meio garotão. Kristen é mais reflexiva. Um pouco para o companheiro de elenco, um pouco para o repórter, ela comenta a agitação na frente do hotel, a correria dos fãs.


"Temos a sorte de estar aqui, e tudo isso é maravilhoso, mas a série é maior que nós e outros atores poderiam estar provocando a mesma reação. O público não está aqui porque eu sou Bella e Taylor (Lautner) é Jacob. Talvez Robert (Pattinson) seja o mais carismático de nós todos, mas até ele acha maluco que tenha ido dormir um dia anônimo e acordado uma celebridade por causa de um vampiro que interpreta num filme de Hollywood."


Na iconografia tradicional do gênero, vampiros são sensuais, voam, o ato de sugar o sangue e a vida eterna mexem com fantasias profundas. Bella responde - "Isso pode valer para os velhos vampiros. Nada disso é relevante aqui. O que Stephenie (Meyer) reinventou, o que nós estamos reinventando aqui é 'Romeu e Julieta'. Vá lá fora e pergunte para aquelas garotas. Todas gostariam que Robert (Pattinson) aparecesse e as beijasse, com todo o risco que isso implica. Só isso." O romance, portanto, predomina sobre a perversão. O sucesso da série é um sinal dos tempos. (Luiz Carlos Merten - AE)

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